Maçonaria x Igreja Cristã

O tema "Maçonaria" de tempos em tempos volta a ocupar a atenção das igrejas e o interesse do mundo.

  • Que é a maçonaria?
  • Quais são seus objetivos e propósitos?
  • Há incompatibilidade entre a igreja e a maçonaria?


Os motivos que acordaram tais perguntas são vários. Da parte das igrejas foi o movimento ecumênico, um maior aconchego das denominações cristãs entre si, bem como a aproximação do cristianismo com as religiões, na tentativa de unir todas as forças vivas do mundo para uma luta mais decisiva em prol da paz mundial, da fraternidade e da justiça social. Nesse esforço comum, houve também, por parte dos maçons, maior abertura. Eles dão a conhecer publicamente os nomes de seus dirigentes e integrantes, chamam atenção para suas reuniões, destacam suas realizações na área social e combatem as acusações e incriminações que vêm sofrendo.


Nesse diálogo, as igrejas cristãs ouvem da parte dos maçons argumentações de que não são uma organização secreta, não são religião nem substitutivo para a religião; antes favorecem os verdadeiros princípios religiosos, lutam pelo aperfeiçoamento moral do indivíduo e da humanidade, promovem a união e a paz, amam a liberdade, praticam a caridade e a tolerância.


Diante dessa nova situação, as igrejas cristãs, especialmente as que condenavam a maçonaria não permitindo que seus membros pertencessem a ela, são convidados a reexaminar sua posição.



Posicionamentos diante da Maçonaria 


A Igreja Católica, que no passado condenou a maçonaria pela bula In eminenti do Papa Clemente XII (1738), pela bula Providas (1751), pela encíclica Humanum genus de Leão XIII (1884), e ainda pelos cânones 684 e 2335 do Codex Iuris Canonici que proíbem aos católicos, sob a pena de excomunhão,1 inscreverem-se nas associações maçônicas ou em outras associações semelhantes,2 começaram a rediscutir sua posição.

Algumas posições dos católicos já foram publicadas. O cardeal Seper, presidente do Congresso Romano sobre Fé, afirma que "A condenação e excomunhão das bulas papais só atinge aqueles que pertencem a uma loja que realmente é contra a igreja". 3 Em outro momento conclui: "É certo que a maçonaria não conspira contra a religião. Quanto à maçonaria dos países da Europa e da América verifica-se que, hoje em dia, parece, em muitos casos, ter perdido suas concepções anti-cristãs, tornando-se mera sociedade de garantia de interesses sociais e profissionais de seus membros".4

Após vários estudos, foi publicada a seguinte declaração sobre a questão da pertença de católicos à maçonaria: (1) embora não exista numa cosmovisão maçônica determinada, "o relativismo pertence às convicções fundamentais da maçonaria"; (2) a possibilidade do conhecimento objetivo da verdade (negada pela maçonaria); a relatividade de qualquer verdade se encontra na base da maçonaria; (3) a compreensão que os maçons têm da religião é relativista: todas as religiões são tentativas concorrentes para exprimir a verdade última e inatingível de Deus. O próprio conceito maçônico de uma religião "em que todos os homens coincidem" implica uma atitude religiosa relativista; (4) a maçonaria não admite um conhecimento objetivo de Deus, no sentido do conceito pessoal do teísmo. O "Grande Arquiteto do Universo" é um "algo" neutro, indefinido e aberto a qualquer interpretação; (5) a concepção que a maçonaria tem de Deus não deixa espaço para uma revelação divina, tal como afirmada pela fé de todos os cristãos; (6) enquanto a tolerância católica é uma atitude de benevolência em face das pessoas, a tolerância maçônica diz respeito às idéias, por mais contraditórias que possam ser entre si é; na realidade, mais uma expressão do relativismo; (7) as ações rituais maçônicas manifestam, nas palavras e nos símbolos, um caráter semelhante ao dos sacramentos, como se objetivamente produzissem no homem certa transformação; (8) o aperfeiçoamento ético perseguido como meta última na maçonaria, absolutizado e isolado da graça divina, não deixa espaço para a justificação do homem, no sentido cristão; (9) a maçonaria apresenta aos seus membros uma exigência de totalidade que reclama uma pertença a ela na vida e na morte, o que parece não deixar espaço para a Igreja.5


 O novo Código de Direito Canônico e sua interpretação oficial substituiu o antigo cânon 2335 pelo novo 1374 que diz que quem se inscreve em alguma associação que maquina contra a Igreja seja punido com justa pena; e quem promove ou dirige uma dessas associações seja punido com interdito. Aqui houve duas mudanças, a saber, a exclusão não é mais automática (o caso precisa ser julgado) e, em segundo lugar, não se menciona mais os maçons. Alguns o interpretaram como uma abertura para os maçons, o que motivou uma reação do então Cardeal Joseph Razinger, presidente da Congregação para a Doutrina da Fé:

"Permanece, portanto, imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão."6

Com este posicionamento, a Igreja Católica declara a incompatibilidade entre a sua doutrina e os princípios da maçonaria.


Igualmente os evangélicos, que sempre foram mais liberais em relação aos maçons, emitiram pareceres. Eis alguns: "Uma objeção generalizada contra a filiação de um cristão evangélico à maçonaria não pode ser tomada?7 Também se pergunta: "Pode um cristão ser um maçom? - Esta pergunta deve ser respondida com um claro sim. Pode um maçom ser um cristão? Quem realmente segue o caminho de Cristo e faz a vontade de Cristo, isto só Deus, que conhece os corações, sabe. O ofício de julgar os corações não cabe a nós. . . Se alguém pertence a uma união de homens (desde que não veja nisto uma necessidade para a salvação), ou se usa roupas especiais (desde que não sejam contra o bom gosto ou despreze outros simbolismos) ou se opina sobre perguntas políticas, são em última análise questões pessoais e da responsabilidade individual".8 


 Em 1987, o Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra aprovou a resolução de que a maçonaria e a fé anglicana são incompatíveis. A Igreja Presbiteriana se dividiu por causa da posição diante da maçonaria. O grupo que não aceita a maçonaria formou, em 1916, a Igreja Presbiteriana Independente, declarando ser totalmente impossível qualquer compatibilidade entre o evangelho e os ensinos da maçonaria.9


 Pergunta-se agora, qual a posição da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) frente ao problema? Devem as congregações luteranas permanecer em sua posição, que consta nos Estatutos das Congregações, Deveres dos membros: "Não estar filiado a outras associações religiosas e/ou organizações anticristãs de qualquer natureza." (Ex.: a maçonaria, ou suas similares como a Rosa-cruz.)

Deve esta cláusula permanecer ou ser riscada?

Para responder a esta pergunta, é preciso focalizar a maçonaria no que tange ao seu ser, seus objetivos, seus ritos e sua religiosidade.10 Em todas essas considerações, deve-se ter em mente que apesar de maçons dissidentes terem revelado algumas coisas a respeito da maçonaria e pela guerra terem vindo à luz alguns documentos, muitas coisas ainda permanecem ocultas. A maçonaria ainda está envolta em um véu impenetrável. Suas reuniões são fechadas a pessoas estranhas e os historiadores não têm acesso a seus arquivos. Por isso só nos é possível, e isto com reservas, julgar e interpretar os maçons à base de suas próprias declarações. Entre os muitos autores que ultimamente têm aparecido na praça, alguns que se dizem ex-maçons, não são de todo confiáveis, pois suas afirmações são questionadas por outros maçons. 

 


Que é a Maçonaria? 

Ouçamos o que os próprios maçons dizem a seu respeito:

"A maçonaria é uma união de homens que busca, por uma união fraternal e através de ações e rituais honrados, o aperfeiçoamento e enobrecimento da pessoa."11 Mais: "A maçonaria é o último dos grandes sistemas de uniões de homens com o alvo do aperfeiçoamento ético e moral de seus associados."12 Por fim, ela é "uma união secreta, que tange o laço da fraternidade em torno de homens livres e honrados, laço que é mais forte e alto do que as uniões profissionais, patrióticas, nacionais ou religiosas."13


A partir destas fontes, pode-se chegar à seguinte definição: A maçonaria é uma entidade fechada (outros preferem o termo secreta, com o que alguns maçons não concordam), que congrega homens de todas as raças e credos religiosos e políticos, que afirmam buscar a verdadeira luz, ou a verdade. Seus membros não precisam ser necessariamente ricos, mas terem o suficiente para o seu sustento e de seus familiares e possam socorrer outros, numa união fraternal, que excede os laços políticos, nacionais e religiosos.

A maçonaria se divide em dois grupos:

(1) os regulares, que se destacam pelos seguintes princípios: Não admitem mulheres em suas reuniões; exigem que seus integrantes creiam em um ser superior (a quem chamam de Supremo Arquiteto); não permitem em suas reuniões disputas religiosas confessionais ou discussões sobre política;

(2) os irregulares, divididos entre si, destacam-se por alguns princípios: admitem mulheres e ateus declarados, ou até os que professam certos credos; admitem discussões sobre religião e política; seu livro é um livro com páginas em branco.
 

Objetivo dos Maçons


Os maçons afirmam: "O verdadeiro objetivo da maçonaria pode resumir-se nestas palavras: desfazer nos homens os preconceitos de casta, as convencionais distinções de cor, origem, opinião e nacionalidades, aniquilar o fanatismo e a superstição, extirpar os ódios de raças e com eles o açoite da guerra; em uma palavra, chegar pelo livre e pacífico progresso a uma fórmula e modelo de terna e universal justiça, segundo a qual todo ser humano possa desenvolver livremente as faculdades de que esteja dotado e possa vir a concorrer cordialmente e com todas as forças para a comum felicidade dos seres humanos, de sorte que a humanidade venha a ser uma só família de irmãos unidos pelo afeto, cultura e trabalho."14

A maçonaria "trabalha para o melhoramento intelectual, moral e social da humanidade. Daí seu lema: ciência, justiça e trabalho. Seu objetivo é a investigação da verdade, o exame da moral e da prática de virtudes."15



Que querem os maçons?

"Eles querem aperfeiçoar o homem moralmente. Seus princípios básicos são: Liberdade, Tolerância e Fraternidade."16 O quanto é possível julgar, a maçonaria afirma ter o propósito de lutar pelo aperfeiçoamento ético do homem e da humanidade. Combater o fanatismo e promover a união da humanidade. Que significa isto? Se querem melhorar o indivíduo e a humanidade, porque mulheres e crianças e as classes menos favorecidas são excluídas? Não deveria a educação moral atingir todos e isso desde o berço? Os maçons querem desfazer todos os preconceitos e classes que dividem a humanidade, mas eles próprios iniciam esse trabalho formando preconceitos, criando uma classe distinta e das mais fechadas que existe. Se querem promover uma união e lutar contra o fanatismo, perguntamos: o que é fanatismo? Confessar a verdade religiosa com confissão clara é fanatismo? Voltaremos a estas perguntas mais adiante.

 

Ritos e Símbolos dos Maçons


A maçonaria não possui uma base espiritual contida em palavras ou formulada em doutrina. Procuram alcançar seus objetivos éticos pelo galgar de graus, por ritos e símbolos que, em sua maioria, foram extraídos do ofício de pedreiro, visto que a maçonaria representa figurativamente a arte de construir.

Uma explicação bem popular diz que "a base espiritual dos maçons não se representa em primeira linha em palavras, mas por símbolos que foram tomados das profissões dos arquitetos, já que eles representam simbolicamente a arte de construir. A simbólica dos maçons consiste em atos simbólicos e rituais".

Aos símbolos pertencem: A Bíblia (que em outros países pode ser substituída pelo livro religioso em vigor, ex.: O Alcorão. Os maçons irregulares não aceitam a Bíblia, mas colocam em seu lugar um livro com todas suas páginas em branco), o esquadro, o compasso, o martelo, a colher de pedreiro, a mesa de trabalho; e os que dirigem o trabalho devem estar aparamentados com luvas brancas e avental.17

Albuquerque diz que ?a maçonaria é ciência velada por alegorias e ilustrada por símbolos. Simbolismo é alma e vida da maçonaria; nasceu com ela, ou melhor, é o germe de que brotou a árvore da maçonaria e que ainda a nutre e anima.18 Conclui dizendo que "os símbolos maçônicos, derivados dos símbolos primitivos, foram aplicados à arte de construir desde a origem dessa mesma arte."19

Os graus inicialmente eram três: aprendiz, companheiro e mestre. Algumas lojas permanecem com estes três; outras têm mais, chegando até 33 graus e acima. Por ritos entendem o correto desenvolvimento das ações culturais, que têm como centro o homem ao qual visam aperfeiçoar e enobrecer. Sobre o significado dos símbolos, Rolf Appel, líder da Grande Loja alemã de Hamburgo, Alemanha, escreve: "os símbolos maçons fogem a uma interpretação racional e lógica. Têm muitos sentidos - por isso são inesgotáveis - eternos e inacessíveis à experiência. O trabalho no templo simboliza tanto o trabalho no seu próprio aperfeiçoamento, como o aperfeiçoamento moral do mundo. A pedra simboliza a imperfeição; nela o aprendiz deve labutar para seu aperfeiçoamento."20

Diante desse quadro surgem várias perguntas. É possível haver uma união fraternal que sem dogma e uma base doutrinária possa alcançar a edificação moral? Até hoje esta pergunta parece não ter sido respondida pelos maçons.21 Seria o seu segredo a grande força de sua união? E qual seria esse segredo? Como se observa, tanto em seus objetivos como a respeito dos meios para alcançá-los por ritos e símbolos, há grandes incógnitas. Os maçons o explicam, afirmando que as forças destes ritos são inexplicáveis, só podem ser conhecidos pela experiência, ou seja, para conhecer seu significado a pessoa precisa tornar-se maçom.
 

O Segredo dos Maçons


Por muitos séculos os maçons foram acusados de serem uma organização secreta. A história o confirma.

O manto do silêncio os envolveu por muito tempo e ainda envolve muitas coisas dos maçons. Os maçons contestam essa afirmação, dizendo que não possuem segredos, mas cultivam a virtude do silêncio. Vejamos o que eles afirmam:

"O chamado segredo maçônico é justamente o ponto sobre o que mais se tem especulado e no qual se baseiam os que condenam nossa Ordem Augusta. Não compreendendo a sua verdadeira razão, ou seja, o caráter espiritual, iniciático e construtivo desse segredo, não querem ver no mesmo mais do que um pretexto para fins execráveis ou, pelo menos, tais que não podem ser confessados publicamente por temor da luz do dia."22

"Cada um que se ocupa com a maçonaria, percebe que há um segredo, que já por séculos une os maçons. Esse segredo está nos rituais que agem sobre eles e desprendem forças na alma de seus participantes para benefícios próprios e dos que os cercam. Estes segredos não podem ser desvendados, mas são vividos e experimentados na alma... Por isso num dos manuais da maçonaria de 1863 consta: A maçonaria não tem segredos, mas é um segredo."23

"Calar é para os maçons uma virtude, que deve agir para educar. Isto se refere ao ritual, às conversas íntimas de irmãos, à informação sobre irmãos. Ela é antes uma contra-ofensiva à exagerada verbosidade de nosso tempo."24


O segredo dos maçons é a vivência pessoal. Este é um fator indispensável, como relata um mestre maçom:

"Eu sabia como tudo iria acontecer. Mas quando estava no meio de meus irmãos, e meus olhos foram desvendados, fui comovido em meu íntimo. As lágrimas me vieram aos olhos. Isto posso relatar quantas vezes quiserem e não compreenderão o que senti neste momento. Nem mesmo eu o posso exprimir em palavras. São sentimentos que só se pode experimentar e não descrever, como a ordenação de um sacerdote, a confirmação, o casamento, o ser mãe pela primeira vez. Nestes momentos há sentimentos indescritíveis. O segredo da maçonaria é a vivência."25

Respondendo à pergunta se a maçonaria é uma sociedade secreta, um manual seu diz: "Não, pela simples razão de sua existência, pois é amplamente conhecida. As autoridades de vários países lhe concedem personalidade jurídica. Seus fins são amplamente difundidos em dicionários, enciclopédias, livros de histórias, etc. O único segredo que existe, e não se conhece senão por meio do ingresso na instituição, são os meios para se reconhecer os maçons entre si, em qualquer parte do mundo e o modo de interpretar seus símbolos e os seus ensinamentos neles contidos."26


Afirma Salomão: "Há tempo de estar calado, e tempo de falar" (Ec 3.7). Tudo tem sua razão e seu motivo. Se é para falar o mal, calar é ouro, se deixo de falar o bem, calar é pecado. "Quem não me confessar diante dos homens," diz Jesus, "também não o confessarei diante do meu Pai que está nos céus" (Mt 10.32). Assim o calar é uma virtude somente quando usado para evitar o mal.

Há segredos militares que visam o bem da pátria. Mas por que vamos esconder o bem? Se a doutrina dos maçons visa o bem e tem este poder, por que calar? Qual o motivo de calar dos maçons? Eis a incógnita, que permanece não respondida, apesar de toda a apologética maçônica.27 Boaventura Kloppenburg afirma que "a Maçonaria não é apenas uma sociedade discreta, mas secreta, no sentido próprio e usual da palavra."28
 

A Maçonaria é Religião?


A maçonaria afirma categoricamente não ser religião, nem substitutivo para a religião. Os maçons não são contra a religião, antes, especialmente os regulares, exigem que seus filiados acreditem em um ser superior. Ouçamos o que afirmam.

Lê-se no primeiro Artigo da Constituição de Anderson: "por seu compromisso, o maçom é obrigado a obedecer à lei moral, e, se devidamente compreende a Arte, jamais será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso. Porém, embora nos tempos antigos os maçons fossem obrigados a pertencer à religião dominante em seu país, qualquer que fosse, considera-se hoje muito mais conveniente obrigá-los apenas a professarem aquela religião que todo o homem aceita, deixando cada um livre em suas opiniões individuais, isto é, devem ser homens probos e retos, de honra e honradez, qualquer que seja o credo, a denominação que o designa. Deste modo, a maçonaria é o centro de união e o meio de conciliar a verdadeira fraternidade entre pessoas que teriam permanecido perpetuamente separadas."29


A maçonaria é uma religião? Muitos maçons afirmam que não.

Dizem: A maçonaria não é uma religião, mas uma sociedade que tem por objetivo unir os homens entre si. União recíproca, no sentido mais amplo e elevado do termo. E nesse seu esforço de união dos homens, admite em seu seio as pessoas de todos os credos religiosos, sem nenhuma distinção. Mas há controvérsia. Outros maçons afirmam ser a maçonaria uma instituição religiosa "porque reconhece a existência de um único princípio criador, regulador absoluto, supremo e infinito, ao qual se dá o nome de Grande Arquiteto do Universo, porque é uma entidade espiritualista em contraposição ao predomínio do materialismo. Estes fatores que são essenciais e indispensáveis para a interpretação verdadeiramente religiosa e lógica do Universo, formam a base de sustentação e as grandes diretrizes de toda a ideologia e atividade maçônica."30 Haack contesta: "Os maçons de nossos dias nada têm a ver com religião. Mas por ter crescido em terra cristã, nota-se em muitas partes contactos no campo da ética."31 Ou, então: "ela compromete o maçom só com aquela religião com a qual todos os homens concordam e deixa a cargo de cada indivíduo suas convicções especiais."32

Em contraposição à religião, todo o esforço dos maçons concentra-se na vida nesta terra; não se refere à eternidade: não realizam cultos e sua grande diferença em relação à religião é não possuir uma doutrina salvífica. Assim também o jesuíta Michel Diereck reconheceu que "a maçonaria não é religião, mas um estilo de vida e não possui um dogma escrito, mas regras de vida."33 No ritual fúnebre da maçonaria fica expresso que pelo avental depositado na sepultura, os maçons são 'lembrados da pureza e conduta da vida tão essenciais para ser admitido na Loja Celestial lá do alto, onde o Supremo Arquiteto do Universo reina em eterno esplendor."34

Como se vê, os maçons negam serem religião ou substitutivo para ela. Ao mesmo tempo afirmam serem religiosos e por isso possuem ritos cultuais. Negam que aspiram ser uma religião que una a todos; ao mesmo tempo afirmam combater o fanatismo, tirarem de cada religião as verdades universais e lutarem por uma união. Possuem o seu deus, se bem ser-lhes o mesmo desconhecido. Dão-lhe o nome de "Grande Arquiteto do Universo" G.A.D.U.35 Iniciam suas reuniões em nome desse Arquiteto. Cultuam esse deus não por ensinamentos dogmáticos, mas por ritos simbólicos. Têm seus próprios ritos funerais.

Se a religião se ocupa com a relação do homem com Deus, então a maçonaria é religião. Pretendem ser uma religião que toda a pessoa possa aceitar. Portanto uma religião segundo a carne, que não aceita as coisas do Espírito de Deus. São religião tolerante, tão em moda em nosso tempo de ecumenismo, cujo denominador comum é: "União na diversidade e aceitar a verdade de cada um, pela tolerância". Dentro de seu princípio de tolerância, usam o livro religioso mais em voga na localidade, mas na verdade não aceitam nenhum, pois têm sua própria concepção das coisas.

Bem afirmou um líder maçônico: "Nós só aceitamos 'procuradores', não aceitamos 'achados' em nossas fileiras. Quem deseja ser um maçom o percebe primeiramente em seu interior, então confia-se a um amigo".

Assim consta num antigo documento maçom. Esta frase espelha a verdadeira índole maçônica. Maçons são pessoas que procuram a verdade. São eternos procuradores. Procuram a verdade, a justiça e o aperfeiçoamento. Em tudo isso, seus olhos não estão voltados para a eternidade, nem atentos à voz de sua razão. Realmente é uma religião pobre e vazia. Falam em Deus, mas não o conhecem. Veneram um deus mudo que não lhes fala. Confiam em suas próprias obras, julgando que por elas são aceitos pelo deus desconhecido na eternidade. Como não possuem uma verdade expressa, aceitam de certa forma qualquer religiosidade, desde que concorde com seus princípios. Mas, no confronto com a verdade revelada do verdadeiro Deus, a rejeitam.Chamam o apegar-se à verdade divina, revelada na Escritura, de fanatismo e a combatem, revelando assim a índole da natureza humana que não aceita as coisas do Espírito de Deus (2Co 2.14). Reúnem pessoas que buscam a verdade e a paz, por não a terem encontrado nas religiões existentes.

 

Luteranos e a Maçonaria


Diante do que vimos sobre a maçonaria, especialmente as afirmações de que o maçom é um eterno procurador da verdade, que luta pelo aperfeiçoamento moral da pessoa e julga ser capaz disso, queremos mostrar porque um cristão convicto, especialmente o cristão luterano, não se filia à maçonaria, e porque um maçom, ao abraçar a fé cristã, não permanecerá na maçonaria. As razões o poeta sacro expressou assim: "Achei o eterno fundamento, em que minha âncora firmar; é Cristo e seu atroz tormento. Eterno, prévio à terra e mar, nem mesmo irá estremecer, quando o universo perecer". 36

 

O cristão, especialmente luterano, não é um procurador. Ele conhece o único e verdadeiro Deus, um Deus em três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Vejamos alguns detalhes desta convicção:


1. Escritura Sagrada. O cristão, especialmente o luterano, sabe que Deus se revelou à humanidade desde o princípio e por último nos falou por seu Filho Jesus Cristo. Temos sua palavra registrada na Escritura Sagrada, escrita pelos profetas, evangelistas e apóstolos. Eles escreveram inspirados por Deus. Por esta palavra, Deus se revela à humanidade como o único e verdadeiro Deus, em três pessoas. Ao Pai atribuímos a obra da criação e manutenção do universo; ao Filho, Jesus Cristo, a salvação da humanidade; ao Espírito Santo, a obra da santificação. Pela fé na graça de Cristo, temos paz com Deus, força para a vida santificada, orientação e a esperança da ressurreição e da vida eterna (Hb 1.1-2; 2Tm 3.16; Jo 8.31-32, 47; Jr 2.13; 1Co 2.14).

2. Pecado e salvação. Deus criou o universo perfeito. Infelizmente anjos, em sua liberdade, desobedeceram a Deus. Deus os expulsou de sua presença e os condenou ao inferno. Deixou-lhes, no entanto, até o dia do juízo final, certa liberdade de ação. Satanás tentou o primeiro casal, Adão e Eva, que de livre e espontânea vontade, seguiram a tentação, desobedecendo a Deus. Eles foram expulsos do paraíso. Mas em grande amor, Deus providenciou para eles e toda a humanidade maravilhosa salvação por seu unigênito Filho, Jesus Cristo. No tempo determinado Deus enviou seu Filho Jesus Cristo ao mundo. Nasceu da virgem Maria, e como substituto de toda a humanidade cumpriu perfeitamente a lei de Deus. Pagou pelos pecados da humanidade, venceu nossos inimigos: pecado, morte e Satanás. Esta salvação Deus anunciou a Adão e Eva e a proclamou pela boca de Seus profetas. Jesus ordenou que este Evangelho, a boa-nova da salvação pela graça em Cristo, fosse proclamado até o fim dos séculos, para que todo o que nele crê, não pereça mas tenha a vida eterna (Gn 1.31; Jd 6; Gn 3.15, 17-19; Jo 3.16; 2Co 5.18-19; Jo 11.25; 3.36; Ap 14.13; Jó 19.25-27; At 1.11).

3. Nascer de novo. Nicodemos foi homem sábio, honrado, cumpridor de seus deveres familiares, civis e religiosos. Ouviu pregações de Jesus e ficou em dúvida sobre a paz com Deus e a vida eterna. Resolveu falar com Jesus. Jesus, sem demora lhe diz: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus (Jo 3.3). Nicodemos queria saber o que precisava fazer. Jesus lhe diz: Nascer de novo. Ora, nascer, criar vida nova, está fora da força humana. Jesus afirma: quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus (Jo 3.5). Em vista disso confessamos: "Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra, e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé" (Catecismo Menor, 3° Artigo do Credo Apostólico).

4. Vida em Cristo e confissão do nome de Deus. O cristão, em especial o luterano, na qualidade de filho de Deus pela fé em Cristo Jesus, reconhece que o único e verdadeiro Deus é o Deus triúno. Ele se revelou à humanidade na Escritura Sagrada e, como se revelou, assim quer ser honrado e adorado. Assim O adoramos e confessamos. Por amor a Deus e às pessoas, confessamos em amor esta verdade revelada, não compactando com afirmações que contradizem a Deus, pois isto seria desonrá-lo. Desvios da verdade bíblica são ciladas de Satanás (Mt 4.10; Jo 17.3; Pv 3.5; Mt 3.17; Mt 28.19; 1Pe 2.9; Mt 10.32; 2Co 6.14-18).).

5. Tolerância. O cristão, especialmente o cristão luterano, se exercita na verdadeira tolerância. Esta consiste em ser fraco com os fracos, para conduzi-los ao caminho da verdade. Tolerância não significa ser indiferente para com a verdade revelada por Deus, dando ao erro posição ao lado da verdade. Tal tolerância falsa Deus condena e castiga (Ap 2.29; Mt 7.15).


Conclusão

Como cristãos, especialmente cristãos luteranos, convictos da verdade revelada de Deus, não mantemos comunhão com organizações ou sociedades, quer abertas ou secretas, declaradamente religiosas ou que praticam certa espiritualidade, que não confessam o Deus triúno, como o único e verdadeiro Deus. Não mantemos comunhão com grupos que não ensinam ser Cristo verdadeiro Deus gerado do Pai desde a eternidade, e verdadeiro homem, nascido da virgem Maria, nosso único e suficiente Salvador, ou que ensinam sermos salvos pela graça de Cristo e nossas boas obras (sinergismo). Ter união com tais igrejas e associações é negar a nossa fé.
 

Como tratar com maçons

Ao tratarmos com maçons, será prudente evitar discussões estéreis em torno da maçonaria, sua história e seus feitos.37 Nosso objetivo será levar a pessoa ao conhecimento da fé cristã. Caso nos defrontemos com maçons que se professam cristãos, quer sejam luteranos ou membros de outras denominações, só podemos concluir duas coisas: provavelmente não conhecem o que é a maçonaria ou em que consiste a verdadeira fé cristã.

Diante disso importa enfocar só um ponto: a bênção de ser um cristão. Discutir maçonaria, por ser organização secreta, não nos leva a um fim proveitoso. Basta conhecer seus traços principais, que abordamos aqui: O maçom é uma pessoa que procura a verdade e procura paz com Deus, mas a quem não conhece; busca a vida eterna através da prática de boas ações, mas sobre a qual não tem nenhuma certeza. Eis o ponto por onde começaremos a confessar as verdades bíblicas.

Como cristãos, conhecemos o único e verdadeiro Deus, a fonte da verdadeira paz, o Deus triúno, que se revelou e revela à humanidade unicamente na Escritura Sagrada. Por isso é preciso pontuar: a justificação do pecador diante de Deus. "Conhece-te a ti mesmo", afirmam os maçons, como já afirmavam os gregos. Sim, isto é importante. Mas isto é possível somente à luz da Palavra de Deus. Ela mostra que somos pecadores perdidos e condenados, capazes sim, de certa justiça social, mas incapazes de alcançar a perfeição que Deus requer nos seus Mandamentos. Precisamos de um Salvador. A Bíblia nos mostra quem é o nosso único e suficiente Salvador, Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ele veio do céu. Tornou-se nosso irmão na carne. E, como nosso substituto, cumpriu perfeitamente a lei. Por sua paixão e morte pagou a culpa da humanidade, por sua ressurreição mostrou que venceu nossos inimigos, a saber, o pecado, morte e Satanás. O Pai aceitou Seu sacrifício em nosso favor. Para que todo o que nele crê, não pereça mas tenha a vida eterna. "E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos" (At 4.12).

Se uma pessoa for ensinada assim, mas rejeitar seguidamente estas verdades, não poderá ser aceita como irmão na fé em Cristo, numa congregação cristã. Se for membro de uma congregação luterana e após exposição das verdades cristãs e pacienciosa admoestação não se desligar da maçonaria, não poderá ser considerado irmão na fé e membro da igreja luterana. Deve ser desligado da congregação. Tal desligamento é manifestação de amor, a fim de tentar convencer a pessoa do seu erro para que se arrependa, aceite a Verdade e volte à comunhão com os irmãos e à comunhão com o Deus gracioso.

Parecer aprovado na 60ª Convenção Nacional
Foz do Iguaçu, PR
21 a 25 de abril de 2010
 

Referências


1 BENIMELI, J. A. F., CAPRILE, G., ALBERTON, V. Maçonaria e Igreja Católica: Ontem, Hoje e Amanhã. 4 ed. rev. São Paulo: Paulus, 1998. p. 23-45.
2 WICHT, F., SCHNEIDER, R. Weltfreimaurerei. Weltrevolution. Weltrepublik. Munique: J. F. Lehamanns Verlag, 1936. p. 892.
3 ELBERN, J. e EBERTS, G. Kein Aerger mehr mit der Kirche. Augsburg: Weltbild Verlag, 1975. p. 62.
4 Citado por PANDOLF, Hilário. Maçonaria e Católicos. Revista Eclesiástica Brasileira 894 (Dez de 1975). p. 894.
5 HORTAL, Jesus. Maçonaria e Igreja Católica: conciliáveis ou inconciliáveis. In Coleção Estudos da CNBB (66). 4.ed. rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2002. p. 63. 
6 Idem, p.67-69. 
7 Evangelische Zentralstelle für Weltanschaungsfragen, p. 22. 
8 Kirchenamt der VELKD, p. 41.
9 HORTAL, op. cit., p. 74-77. 
10 Por questão de espaço, deixaremos de lado o estudo sobre o desenvolvimento histórico da Maçonaria. Para uma abordagem histórica geral, cf. SCHNOEBELEN, William. Maçonaria do outro lado da Cruz. 2.ed. Lucian Benigno, trad. Curitiba: Luz e Vida, 1997. p. 143-267. Para uma história da maçonaria no Brasil, cf. KLOPPENBURG, Boaventura. Igreja e Maçonaria. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 9-50. Também HOCH, Lothar C., ed. Protestantismo, Liberalismo e Maçonaria no Brasil no Século XIX. Estudos Teológicos 27 (1987): 195-279. 
11 HAACK, F. W. Freimaurer. München: Claudius Verlag, 1976. p. 5.
12 Ibidem. 
13 WICHT, op. cit., p. 53. 
14 ALBUQUERQUE, A. T. C. O que é a Maçonaria. Rio de Janeiro: Editora Aurora, 1958. p. 62. 
15 QUE É MAÇONARIA? Porto Alegre: Loja Minerva, 1975. p. 4.
16 ELBERN, op. cit., p. 65.
17 QUE É MAÇONARIA?, op. cit., p. 22.
18 ALBUQUERQUE, op. cit., p. 101.
19 Ibidem.
20 ELBERN, EBERTS, op. cit., p. 64.
21 HAACK, op. cit., p. 38. 
22 ALBUQUERQUE, op. cit., p. 93. 
23 BORCHERS, KLAUS. Mit Bibel, Winkelmas und Zirkel. Düsseldorf: Die Glocke, 1976. p. 22. 
24 ELBERS, op. cit., p. 64.
25 HAACK, op. cit., p. 8-9.
26 QUE É A MAÇONARIA, op. cit, p. 12. 
27 Para uma ampla análise dos segredos da maçonaria, cf. ANKERBERG, John; WELDON, John. Os ensinos secretos da Maçonaria. São Paulo: Vida Nova, 1995. 
28 KLOPPENBURG, op. cit., p. 75. Itálico no original. 
29 ALBUQUERQUE, op. cit., p. 13.
30 QUE É A MAÇONARIA, op. cit., p. 8. 
31 HACK, op. cit., p. 31.
32 BORCHERS, op. cit., p. 22. 
33 Citado por BORCHERS, op. cit., p. 22. 
34 Masonic Burial Service, da Grande Loja Maçônica da Louisiana, USA. Disponível em http://www.la-mason.com/stb82.htm. (Acessado em 29 de setembro de 2008). 
35 Schnoebelen, um ex-maçom, o qualifica como o deus "genérico". Cf. SCHNOEBELEN, op. cit., p. 41. 
36 Hinário Luterano. 14.ed. Porto Alegre: Concórdia, 2003 (Hino 366.1). 
37 Uma mostra de como se pode dialogar com um maçom com vistas ao testemunho do amor de Deus em Cristo pode ser encontrada em L. James Rongstad, How to Respond to... the Lodge. St. Louis: Concordia Publishing House, 1995, p. 28-29. 

 

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