16 - CONFISSÃO DE AUGSBURGO
Em 1530, pela primeira vez em nove anos, o Imperador Carlos V dispunha de um
tempo livre em sua agenda para visitar a Alemanha. Suas guerras com a França
tinham terminado temporariamente e ele queria muito resolver os problemas
religiosos que tinham que mantinham a Alemanha dividida. Os turcos ainda eram
uma ameaça e Carlos precisava de toda a ajuda que pudesse conseguir para
mantê-los longe das suas terras.
O imperador convocou então uma dieta a realizar-se em Augsburgo. Ele disse
aos príncipes luteranos que apresentassem uma declaração escrita das suas
crenças e prometeu-lhes uma ótima oportunidade de apresentá-la. Alguns dos
príncipes luteranos não confiavam em Carlos, mas o Eleitor João da Saxônia
confiava. Ele pediu a Lutero, Melanchthon e Justus Jonas que escrevessem a
declaração solicitada por Carlos. Esta declaração de fé dos luteranos foi
chamada de "Artigos de Torgau".
Lutero ficou amargamente despontado quando o Eleitor João não permitiu que
ele fosse junto a Augsburgo. Mas o Eleitor compreendia que Lutero ainda era um
proscrito sob o Edito de Worms e temia que o reformador não estivesse seguro
fora da Saxônia.
Muito contra a vontade, Lutero teve de permanecer no Castelo de Corburg
enquanto seus amigos seguiram para Augsburgo. Em Corburgo, como em Wartburgo
nove anos antes, Lutero se manteve ocupado estudando a Bíblia e escrevendo
cartas. Quatro horas por dia ele orava para que Deus cuidasse dos seus amigos e
os fizesse lograr êxito.
Neste meio tempo, os inimigos de Lutero insistiam com Carlos para que usasse
a força para acabar de vez com a nova religião. Carlos começou a ceder diante
da insistência deles e recusou-se até a receber uma visita do Eleitor João,
ordenando ainda que os protestantes parassem de pregar em Augsburgo.
O imperador estava também de posse do último livro de João Eck, no qual
estavam enumerados mais de quatrocentos "erros" nos ensinamentos de
Lutero. Eck incluiu muitas coisas que estavam sendo ensinadas pelos outros
reformadores, mas não por Lutero. Quando Melanchthon leu este livro,
compreendeu que os Artigos e Torgau teriam de ser reescritos e ampliados para
responder às falsas acusações de Eck.
Melanchthon tinha de trabalhar muito, e rápido, para escrever a nova
confissão dento do prazo. Quando terminou, enviou uma cópia a Lutero, que
ficou muito satisfeito com o trabalho. Esta declaração de fé, conhecida como Confissão
de Augsburgo, é mantida ainda hoje pelos luteranos.
Em Augsburgo, os príncipes luteranos levantaram-se com bravura em defesa de
sua fé. Eles se recusaram a ajoelhar-se diante do representante do papa ou
durante serviços religiosos especiais realizados na catedral.
Um dos príncipes chegou mesmo a dizer, na cara do imperador, que antes
desejaria que sua cabeça fosse decepada a esquecer o evangelho de Jesus.
No dia 25 de junho de 1530, o imperador convocou a reunião da dieta no
palácio do bispo. A sala estava abarrotada de gente e muita gente mais ficou de
pé nos corredores e na área externa.
O Dr. Christian Beyer levantou-se e foi à frente. Ele leu a Confissão de
Augsburgo, em alemão, tão alto que mesmo os que estavam do lado de fora podiam
ouvir cada palavra.
Durante duas horas o Dr. Beyer leu. A Confissão declarava o que os luteranos
crêem acerca de Deus, pecado, fé, ceia do Senhor, batismo, em muitas outras
doutrinas. Citava muitas passagens da Bíblia para mostrar que estes ensinos
eram baseados na palavra de Deus. Ela provava que os luteranos não defendiam
doutrinas falsas como Eck e outros tinham dito. Salientava também alguns
ensinos da igreja romana que estavam em desacordo com as Escrituras, e mostrava
como esses erros haviam sido corrigidos nas novas igrejas. A Confissão tentava
mostrar que os ensinos de Lutero eram os mesmos da igreja cristã primitiva.
Cinco ou seis príncipes e os oficiais das duas cidades tinham assinado a
Confissão. Os líderes de mais cinco cidades livres também a assinaram depois
de lida, e mais ainda se uniram a eles mais tarde. Estas pessoas estavam
arriscando suas vidas por causa do evangelho de Jesus Cristo.
Alguns dos príncipes católicos ouviram pela primeira vez que os luteranos
realmente criam. Muitos ficaram surpresos ao ver em quão perfeito acordo com as
Escrituras estavam os ensinos. Um desses príncipes perguntou a João Eck se ele
poderia oferecer bons argumentos contra os luteranos, ao que Eck respondeu que
poderia fazer isso com base nos pais da igreja, mas não das Escrituras. O bom
príncipe católico perguntou então: "O Senhor está me dizendo que os
luteranos estão instalados dentro das Escrituras enquanto nós estamos do lado
de fora?"
O Imperador Carlos, porém, não estava convencido. Ele designou grupos de
homens, encabeçados por Eck, para escrever uma resposta à Confissão apontando
os seus "erros". Isso foi feito bem rapidamente, em tempo recorde. Mas
quando o imperador a leu, meneou a cabeça em sinal de desalento: "Isto
não vai funcionar. Vocês respondem aos luteranos com ódio e desdém. Façam
tudo novamente, mas desta vez usem apenas a Bíblia em seus argumentos".
Pelo dia 3 de agosto, outra cópia estava pronta – muito mais curta do que
a primeira e recheada de passagens bíblicas. O imperador então disse que tinha
lido a declaração luterana e a católica, e que ele acreditava que a católica
era a correta e verdadeira. Aos luteranos foi dito que a aceitassem sem mais
discussão. Se não fizessem isso, haveriam de sentir o gosto do "fio da
espada".
Mas os príncipes luteranos não cederam. O eleitor João valentemente
encarou o imperador e disse que sofreria a perda de sua vida e de suas terras
antes de negar seu Salvador. Os outros príncipes também permaneceram firmes.
Deus tinha verdadeiramente respondido as orações de Lutero!
Deu também estendeu seu braço protetor sobre os seguidores de Lutero.
Carlos deus aos luteranos sete meses para mudar de idéia e retornar ao seio da
igreja romana. Mas, durante esse tempo, aparecerem novos problemas que
absorveram toda a atenção de Carlos. Passaram-se mais quinze anos antes que
ele pudesse voltar a sua atenção para os problemas religiosos da Alemanha.
Nesse ínterim, cada vez mais pessoas ouviam o evangelho pregado nas igrejas
luteranas.
Pelo resto da sua vida, Lutero continuou a pregar e ensinar em Wittenberg. De
sua pena sempre operosa saíram muitos livros, panfletos e cartas. A casa de
Lutero estava sempre aberta aos visitantes e Katy e as crianças faziam da casa
um lugar feliz para o Dr. Lutero.
Mas sua saúde começou a ficar abalada. Quando monge, tinha jejuado muito e
dormido pouco. Como reformador, nunca tinha parado de trabalhar – pregando,
ensinando e escrevendo. Mesmo um organismo forte como o dele não poderia
suportar essa carga por tempo indefinido.
Em janeiro de 1546 ele foi chamado a Eisleben a fim de apaziguar uma querela
entre dois nobres. A viagem cansativa em tempo de intenso frio trouxe a Lutero
sua doença final. No seu leito de morte, o grande reformador citava passagens
das Escrituras e pedia a Deus que recebesse sua alma. Justus Jonas reclinou-se
sobre ele e perguntou: "Estás pronto para morrer no nome do Cristo e na
doutrina que pregaste?" Lutero usou toda a força que lhe restava numa
resposta clara: "Sim".
Foram suas últimas palavras. Na mesmíssima cidade onde tinha nascido havia
de 62 anos atrás, ele adormeceu em Cristo na manha de 18 e fevereiro de 1546,
rodeado pelos amigos e por dois de seus filhos.;
Uma palavra da Escritura que muito bem se aplica a este servo de Deus é
esta: "Bem está,