A forma do Culto


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19/11/2020 #Artigos #Editora Concórdia

Acho que o culto deveria ser mais livre, “em espírito e verdade”, como Jesus disse!

A forma do Culto

         Por vezes a gente ouve esse tipo de observação, fruto, talvez, da percepção de que o culto luterano tem uma ordem litúrgica um tanto rígida. Pede-se, então, um culto mais espiritual, no sentido de “livre”, “sem forma”. E costuma-se citar as palavras de Jesus, no Evangelho de João 4.24: “Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e verdade”.

         Seria possível dar resposta a isso em termos de uma exegese mais adequada do texto de João 4.24, explicando que aquele “em espírito” teria de ser escrito com um “e” maiúsculo (“Espírito”). Porque, no Evangelho de João, “espírito” nunca se refere ao nosso espírito, mas sempre ao Espírito Santo (e, por vezes, ao espírito de Jesus). Culto “espiritual” é um “culto no Espírito”, no sentido de possibilitado pelo Espírito Santo, dirigido pelo Espírito Santo. No entanto, aqui e agora cabe perguntar se um culto “espiritual”, no sentido de “sem forma”, é possível.

         Para entrar um pouco mais fundo nessa questão, me socorri num dos clássicos da teologia do culto, a saber, um livro de Peter Brunner intitulado Culto em Nome de Jesus (disponível apenas em alemão e em tradução ao inglês). Brunner vai direto ao ponto, dizendo que “por sermos corpo, é impossível um culto sem forma”. Acho que com isso ele quer dizer que almas até poderiam abrir mão da forma. No entanto, estas não se reúnem para o culto da igreja neste mundo. Entre nós, o culto sempre envolve pessoas, corpos, seres concretos. Como pessoas, corpos, temos de prestar culto numa determinada sequência, em determinado lugar, durante certo tempo.

         Se isso é assim, fica claro que não existe culto “não litúrgico”. Toda celebração acaba tendo uma “liturgia”, uma ordem, uma sequência no tempo, mesmo que ela não tenha sido planejada com antecedência. Segundo Peter Brunner, engana-se quanto ao Espírito Santo quem pensa que a obra do Espírito tem algo a ver com improvisação, desordem e confusão. Espírito Santo e paz (1Co 14.32-33), Espírito Santo e ordem (1Co 14.40) andam de mãos dadas. O Espírito Santo jamais opera uma espiritualidade sem forma.

         Se a forma é inevitável, que forma o culto precisa ter?

O culto contém elementos formais que foram instituídos por Cristo e, por isso, não dependem de nossa decisão ou preferência para integrarem o culto. Cristo ordenou que se pregasse a sua Palavra, mandou batizar e instituiu a Santa Ceia. Estes são os elementos fundamentais do culto (aquilo que chamamos de “parte sacramental”). Segundo Peter Brunner, o essencial no culto é “a proclamação da palavra de Deus e a celebração da Ceia conforme a instituição de Cristo no contexto de uma assembleia reunida em nome de Jesus”. Quanto ao mais, ou seja, afora esses elementos instituídos por Cristo, o culto é marcado pela liberdade de Cristo e seu reino nesses tempos do fim. Entendo que isso significa que podemos cantar, como podemos não cantar, embora com canto o culto seja sempre melhor. Podemos ter um órgão, um teclado, um violão, uma gaita, um conjunto de sopro, uma orquestra, ou cantar a capella (sem acompanhamento). Segundo Brunner, até mesmo as partes instituídas por Cristo (Palavra e sacramentos) podem assumir diferentes formas. Talvez algum leitor tenha dúvidas ou até se surpreenda com essa “liberdade na forma”, mas, segundo o autor citado, há liberdade quanto ao que segue: pão sem fermento ou pão fermentado na Santa Ceia; vinho tinto, vinho branco ou vinho diluído em água; o uso das palavras da instituição da Ceia em forma de proclamação ou de consagração, ou num contexto de oração; as palavras da instituição da Ceia conforme um dos relatos do Novo Testamento (Mateus, Marcos, Lucas, 1Coríntios) ou usando uma harmonização dos textos, a exemplo do que Lutero fez e do que aparece na Liturgia Luterana. Nem mesmo o uso do Pai-Nosso pode ser exigido como uma necessidade absoluta. A isso se poderia acrescentar que a pregação da Palavra de Deus não tem uma forma fixa. Não precisa necessariamente ser feita a partir de um púlpito, embora também seja verdade que o púlpito está na igreja para essa finalidade. Não há como definir quantas leituras bíblicas devem ser feitas, embora se possa argumentar que a leitura de apenas cinco versículos dificilmente condiz com o “que a palavra de Cristo habite ricamente em vocês”, que aparece em Colossenses 3.16.

         A liturgia do culto toma forma no amplo espaço entre duas linhas limítrofes: o que é absolutamente proibido e o que foi ordenado por Deus. Aquilo que foi ordenado é o que foi instituído por Cristo. Entre o que está proibido certamente deve aparecer, com destaque, a idolatria, na qual se insere também todo tipo de “culto de personalidade”. Culto não é show artístico do pastor, de um cantor ou de quem quer que seja. Alguém já disse que, em vez de dizer “que grande pregador” ou “que grande cantor”, a igreja deveria reagir, dizendo: “que grande Salvador!” O que fica entre estas duas linhas, ou seja, entre o que foi ordenado e o que foi proibido, é assunto de liberdade cristã e não deveria dividir a cristandade. As divisões se tornam inevitáveis quando pessoas se apegam a uma forma de culto que claramente ultrapassa a linha do absolutamente proibido (idolatria, por exemplo) ou não observa minuciosamente a linha do absolutamente ordenado (volta-se a outras agendas que não sejam a pregação da Palavra e a celebração dos sacramentos).

         O amor, que governa todos os dons (1Co 13), governa também a forma do culto. O amor não força determinada forma de culto para cima da congregação. O amor cristão pode ser dar ao luxo de esperar. O amor tem vida longa, porque é eterno. Lutero é o melhor exemplo, neste particular. Foi apenas depois de um longo período de ensino que ele começou a celebrar a Santa Ceia sob duas espécies, ou seja, alcançando o cálice também aos leigos. E esta é, sob nossa ótica, uma questão bem mais sensível do que cantar em latim ou em alemão! Quanto às ordens litúrgicas que elaborou para a igreja em Wittenberg, Lutero não queria que elas fossem adotadas em toda parte, como se fossem mandamento. Por outro lado, também é verdade que Lutero almejava uma forma de culto mais ou menos fixa numa mesma região, ou província, e, como ele se expressa no escrito intitulado “Missa e Ordem do Culto Alemão”, “que a ordem de uma cidade fosse também seguida pelas vilas e aldeias ao redor”.

         A forma do culto deve favorecer a paz e não provocar divisões. Por isso, mesmo permitindo modificações (como a própria história mostra), a liturgia tende para a inércia, ou seja, ela tende a se manter como está. Mesmo sendo “criativa”, ou seja, permitindo criatividade, a liturgia é uma “tradição”, que tende para a estabilidade. Esta estabilidade favorece a igreja ou os participantes do culto, pois as pessoas sabem “em que página estamos”. Se os “móveis” (os elementos não fixos do culto) são mudados de semana em semana, ninguém mais se localiza na “sala”, isto é, no culto. Culto na igreja é sempre culto comunitário, é culto organizado. Por isso, é impossível sem liturgia. Culto “solo”, culto individual não cabe na igreja reunida para o culto. Culto individual no contexto da igreja é como falar em línguas (1Co 14.2): não edifica a igreja.

         Concluo com mais um pensamento de Peter Brunner. Segundo ele, se quiser ter um caráter ecumênico, qualquer forma de culto ou liturgia deve observar a seguinte estrutura básica: após uma invocação introdutória, a Palavra de Deus é apresentada à congregação através da leitura das Escrituras e do sermão; a congregação apresenta seus pedidos a Deus; a igreja coleta as suas ofertas de gratidão; e, com ação de graças, celebra a Ceia do Senhor.


*Texto publicado na edição de novembro de 2016.

Marcos Schmidt

Pastor da IELB marcos.ielb@gmail.com

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