Deus, nosso refúgio


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04/12/2020 #Artigos #Editora Concórdia

Ontem, hoje e para sempre!

Deus, nosso refúgio

        Uma das constatações imediatas ao estudarmos a história da humanidade – especialmente quando a olhamos com lente de aumento – é o fato de que, sempre quando o plano de Deus para a salvação do ser humano foi ameaçado, ele mesmo interveio para fazer cumprir o seu plano através da vida e obra de Jesus, até a cruz e a sepultura vazia.

         Intervenções de Deus no curso da história da igreja, como a que aconteceu em 31 de outubro de 1517, com Martinho Lutero, são demonstrações de que um mestre da fé como Lutero, é apenas um dedo indicado na direção de Cristo. Uma legítima e oportuna “intromissão divina” para manter de pé aquele programa divino projetado no início da história humana.  

        Portanto celebrar festivamente a Reforma significa ter como prato principal a verdade e como sobremesa a liberdade. Não a verdade de Lutero, mas a verdade eterna pela qual Deus se revela como único salvador do mundo na pessoa de Jesus Cristo; e a liberdade e a profunda paz interior que brota desta extraordinária notícia. Dois ingredientes essencialíssimos para a dieta dos filhos de Deus. O próprio Jesus os serve a todos amorosamente no evangelho de João: “Conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8.32).

        O que apresentamos aqui, por isso, não é um relato sobre a história da Reforma de cinco séculos atrás (e que em 2020 completou 503 anos), nem uma descrição sobre o encanto das belas cidades históricas pelas quais Lutero passou. Apresentamos o evangelho salvador, defendido por Lutero, pois o que realmente importa, ontem, hoje e sempre, é que a história do amor de Deus encontre ressonância na nossa vida; importa que ela mexa conosco, nos tire da dúvida e da incredulidade e renove a confiança no amor de Deus e a esperança de que o céu continue sendo a nossa mais preciosa herança através da cruz!

Como sabemos, o salmo 46 é um dos textos mais belos da Bíblia. Como este salmo serviu de base para o reformador Martinho Lutero escrever o seu mais conhecido hino – o “Castelo Forte” (no Hinário Luterano, é o hino 165) –, vou tomá-lo como fio condutor do que segue. O faço com entusiasmo, pois cantar o evangelho da verdade e da liberdade é uma das expressões mais bonitas de um filho de Deus verdadeiramente livre.

        Tanto o salmo como o hino de Lutero apresentam a confiança incondicional na ação misericordiosa e salvífica de Deus. O “Castelo Forte” é uma releitura em forma de louvor do salmo 46. Não sabemos exatamente quando Lutero o compôs, mas, diferentemente do que muitos imaginam, o “Castelo Forte” foi composto 10 anos após aquele marco inicial do movimento da Reforma e numa época em que, em geral, as preocupações eram outras, como veremos. Somente em 1529 ele aparece pela primeira vez em um hinário. Portanto, foi composto antes daquele ano. Uma hipótese – e a mais provável – é que tenha sido composto quando Wittenberg, em 1527/28, enfrentava a terrível ameaça de mais um surto da longa e mortal peste negra – de longe, a maior de todas as pandemias que já assolou a humanidade. Aliás, quando o novo surto dessa peste chegou em Wittenberg, contam os historiadores que João, o príncipe-eleitor da Saxônia, ordenou a transferência da universidade para outra cidade a 170 quilômetros de distância. Mas, curiosamente, Lutero e alguns professores e pastores, numa bonita demonstração de amor, decidiram ficar na cidade. Lutero acolheu muitas pessoas em sua casa – o antigo mosteiro agostiniano ­– e a transformou num hospital, apesar de sua esposa Catarina estar nos últimos meses de gravidez e seu filho primogênito, Hans, também estar doente. Naquele mesmo ano de 1527, Lutero escreveu uma carta ao pastor Johannes Hess com o título: “Se alguém pode fugir da Peste Negra”. Um pequeno guia prático muito atual para todos os cristãos e uma admirável lição de fé e apreço à ciência. (Uma síntese dessa carta encontra-se disponível em: https://www.luterano.com.br/categoria/comunicados/page/2/.) Lutero argumenta que, tanto a falta de cuidados com a saúde pessoal – que não passa de uma fé valentona e imprudente –, como a falta de amor ao próximo e de caridade para com os doentes, atentam contra a vontade de Deus. Isso nos leva a uma preciosa pista para afirmar que o pano de fundo da letra do hino “Castelo Forte” é, antes de tudo, uma belíssima confissão de confiança em Deus, nosso refúgio em toda e qualquer tentação e tribulação, enfermidade, catástrofe natural e angústias mil.

         Lutero estava pensando em algumas perguntas fundamentais para a vida cristã: O que nos sustenta nos momentos difíceis de nossa vida? E quando chegarmos ao fim de nossa vida, o que de fato nos consola, encoraja e nos dá esperança de vida? Essas são as questões de fundo do “Castelo Forte”, composto dez anos depois daquele 31 de outubro de 1517.

        Neste ano 2020, em que vivemos a “peste da Covid-19”, o “Castelo Forte” e o salmo 46 se revestem de espantosa atualidade. No salmo, aparecem catástrofes naturais, como deslizamentos e terremotos – nos vs. 2 e 3 “Ainda que a terra seja abalada e as montanhas caiam nas profundezas do oceano. Não teremos medo, ainda que os mares se agitem e rujam e os montes tremam violentamente”. Diante dessas terríveis ameaças de destruição e morte, permanece em destaque a afirmação grandiosa e inicial do Salmista: “Deus é o nosso refúgio e a nossa força (fortaleza), socorro sempre presente (que não falta) em tempos de aflição”. Em meio à realidade do sofrimento humano, Deus protege Jerusalém, e faz com que das áridas terras brotem águas cristalinas que alegram o coração.

        Recitamos o salmo 46 e cantamos o hino “Castelo Forte” como gratidão a Deus por estar conosco em todas as situações, por preservar nossa vida, sim, mas especialmente por preservar a sua Palavra e a cristandade contra todos os demônios, dos entusiastas, do mundo, da carne, dos pecados e da morte eterna.

        Poderíamos perguntar se não é uma esperança ingênua e irreal tanto do salmo 46 como do hino de Lutero? Será que também nós podemos declarar como nossa essa mesma confissão? Especialmente se cantarmos na quarta estrofe – lembrando que as palavras no original alemão são ainda mais chocantes: onde no português foi traduzido (para ajustar a métrica do canto): “se vierem roubar os bens, a vida e o lar”, no original diz: “se vierem arrancar corpo, bens, honra, mulher e filhos”?      

         Sem dúvida, Lutero não ignora a dura realidade das tentações, do sofrimento, do mal e da morte. Por isso mesmo ele as descreve com tanta crueza. Mas ele conhece uma realidade ainda maior: a graça de Deus, que sempre prevalecerá – que sempre triunfará na luta. Logo na primeira estrofe é dito que a luta é contra muitos inimigos, dentre os quais, o maior de todos: o próprio diabo – que sabe lutar como ninguém na terra e a quem ninguém é capaz de resistir, a não ser se refugiando em Deus. SOMENTE ELE É NOSSO REFÚGIO: ONTEM, HOJE E PARA SEMPRE!

         Com esta confiança, e apenas com ela, podemos encarar a realidade, mesmo que se apresente profundamente aterradora e cruel. Com esta confiança, nada pode nos trazer pavor e medo. O diabo não tem mais nenhum poder; uma única palavra de Deus basta. Conforme o original, basta para Jesus uma “palavrinha” só (nur ein Wörtlein).

         A supremacia de Deus não poderia ser expressa de forma mais firme e contundente! Todos os nossos esforços de nada valem, mas para Deus uma só “palavrinha” basta. Se uma única palavrinha é suficiente para Deus, por que haveríamos de temer o sofrimento físico ou qualquer outro mal nesta vida curta e passageira, se dele recebemos a promessa da salvação eterna?

         Mas será que não parece demais acompanhar Lutero na sua releitura do salmo 46 quando afirma: “Que tudo se vá? Corpo, bens, honra, mulher e filhos”? Será que não se trata de desprezo tanto do salmista como de Lutero por esses valores tão substanciais e importantes para a vida e tão íntimos em nossas relações, com os quais Lutero, em vida, também se alegrou? Com certeza, não! Nada disso, por mais precioso que seja, dá real segurança para a vida. Mais cedo ou mais tarde, seja de forma dramática, seja de forma tranquila e natural, todos teremos de enfrentar o “último inimigo” inalienável e iniludível, que é a morte. Todos, sem exceção, terão que enfrentá-la, mas o cristão é bondosamente lembrado pela Palavra que também esse “último inimigo” será destruído por Jesus. Vencido ele já foi na cruz e destruído será no dia do juízo.

         Portanto, nada de humano pode nos dar segurança diante das ameaças que nos rodeiam. Podemos até admirar grande fortalezas e castelos, cujas muralhas parecem indestrutíveis, mas os castelos fabricados por mãos humanas não nos darão a real e verdadeira segurança que procuramos e necessitamos. Como escreveu Agostinho de Hipona, no século IV, um dos mestres intelectuais de Lutero: “O coração humano anda inquieto enquanto não descansar em Deus”. Apenas em Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, encontramos verdadeira segurança e paz. Somente ele é o nosso castelo forte, refúgio que não falta: ontem, hoje e para sempre! Não há na terra nenhum outro castelo que seja realmente forte e bom. Apenas Deus! “Isso é certissimamente verdade”, escreveu Lutero repetidas vezes no Catecismo.

         Por isso, o salmo 46 e o mais famoso hino da Reforma nos remetem à realidade maior sob a perspectiva de Deus – nos levam a considerar o olhar de Deus sobre a história – um olhar de perdão e graça pela humanidade ao enviar seu Filho Jesus. Embora encarem com grande realismo as catástrofes naturais e o pecado humano na história e todos os tipos de sofrimentos por ele causados, eles insistem em afirmar que a transcendência pisca para nós no cotidiano; que há algo mais extraordinário, mais poderoso e eterno atrás da “cortina dos nossos sentidos”; que há algo maior e mais decisivo que pode ser encontrado na pessoa do Filho de Deus, Jesus Cristo.

        Assim, tanto o salmo 46 como o “Castelo Forte” podem ser recitados com alegria e cantados com entusiasmo por todos os cristãos, pois apontam diretamente para o centro do evangelho de Cristo. Todos os atingidos pela “intromissão divina” da mensagem do evangelho vivem confiantes e agradecidos a Deus, o ÚNICO REFÚGIO: ONTEM, HOJE E PARA SEMPRE. São dedos indicados na direção de Cristo, especialmente quando compartilham a paz e o perdão que receberam dele, em todos os tempos, também nestes tão difíceis e desafiadores que vivemos em 2020.

        Às vésperas de mais uma festa natalina e um fim de ano, sigamos em frente, sem medo e sem desespero, agradecidos e confiantes, sabendo que Deus nunca nos falta. Somente ele nos sustenta em toda e qualquer situação até o fim. Que a gratidão, que tem os olhos no passado, sustentada pela fé na ação misericordiosa e salvífica de Deus em Cristo, se converta em muitos atos de amor, com os olhos no presente, e renove nossa esperança com os olhos no futuro – o céu, nossa mais preciosa herança e eterno descanso!

 

Enio Starosky

Teólogo, Educador

Diretor do Colégio Luterano “São Paulo”, São Paulo, SP

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