Música, Reforma e Pandemia (parte 2)


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06/10/2021 #Editora Concórdia #Congregações

Confira a entrevista realizada com o maestro e coordenador do programa Toda IELB Canta, Abner Elpino Campos.

Música, Reforma e Pandemia (parte 2)

Entre os feitos da Reforma liderada por Martinho Lutero, no século 16, está a aproximação das pessoas da Teologia, também através da música. Confira a entrevista realizada com o maestro e coordenador do programa Toda IELB Canta, Abner Elpino Campos.

* Acompanhe também a matéria completa do Mensageiro Luterano, acessando aqui.

Como era a música nos anos 1500, considerando sua produção e popularização? Qual era o contexto da música, tanto sacra quanto secular? Quem eram os músicos e onde eles tocavam? Quais eram os principais estilos e instrumentos da época?

O século 16 foi um período de grandes transformações e de intensa atividade em diversos setores da sociedade, tanto na esfera política, religiosa, nas ciências, no descobrimento de novas terras (navegações), como nas artes, em geral, e na música, em particular.

A música, no início da Reforma Luterana, se desenvolveu em um contexto da música secular renascentista (a Renascença se estendeu desde 1450 até 1600). Os reformadores conheciam essa cultura e fizeram uso do que havia de melhor na época. Em termos musicais, o estilo polifônico dos séculos anteriores, como por exemplo do compositor franco-flamengo Guillaume Dufay (1397-1474), continuou no estilo composicional em voga dos compositores do século 16, como Heinrich Isaac (c. 1450-1517) e Josquin des Prez (c. 1450-1521).

A música desse período se desenvolveu a partir das bases da música medieval, cuja linha melódica apresentava ritmos livres, mas dependentes da prosódia do texto (rítmica textual), tendo como modelo o Canto Gregoriano. No início desse período, as músicas ainda eram compostas dentro de um sistema modal (modos gregos ou gregorianos), que, gradativamente, foi sendo substituído pelo sistema tonal (amplamente utilizado na atualidade), além dos primórdios das progressões harmônicas.

Como uma das sete artes liberais, a música era disciplina obrigatória no sistema de ensino da época. Os músicos eram profissionais, tendo como principais empregadores a igreja ou então as diversas cortes europeias. Dentre os principais estilos musicais da época, podemos listar o Madrigal e o Lied, na música secular, e a Missa Cíclica, dentro da música sacra. Composições para vozes e diversos instrumentos, dentre eles o alaúde, o clavicórdio e o órgão de tubos.

E, nesse pano de fundo, podemos afirmar que “Lutero foi essencialmente um produto de seu ambiente musical”. Ele cresceu cercado de música, além de cantar as músicas folclóricas dos mineiros, pois seus pais trabalhavam em minas de carvão. Por volta do ano de 1488, passou a integrar o Coro da Escola de Mansfeld e, posteriormente, os coros das igrejas em Magdeburgo e Eisenach. Já na Universidade de Erfurt, também estudou música.

Lutero aprendeu a tocar alaúde e flauta, e, em 1505, ao entrar no Convento da Ordem Agostiniana, teve contato com o Canto Gregoriano. Dentre os seus compositores prediletos, Lutero cita em seus escritos Josquin des Prez: “... Deus tem pregado o Evangelho através da música, também, como pode ser visto em Josquin, cujas composições fluem livremente, suavemente e alegremente e não ficam obrigados ou presos às regras e são como a música do tentilhão” (LUTHER’S WORKS, 54, 1967, p.129-130). Também de Ludwig Senfl, cantor da capela palatina do imperador Maximiniano, onde, em uma carta de 4 de outubro de 1530, o descreveu como “ornado e agraciado pelo meu Deus”.

 

Lutero, entre tantas outras coisas, colocou letra cristã em músicas populares. Qual a importância/influência desse trabalho?

Até pouco tempo acreditava-se que as composições musicais de Lutero eram oriundas de adaptações de canções populares, já conhecidas pelas pessoas. Mas, de acordo com estudos de Joseph Herl (2004), apenas o hino Vom Himmel hoch, da komm ich her (Eu venho a vós dos altos céus, Hinário Luterano [HL], 2016, nº 26), de 1535, apresentaria origem secular, sendo uma variação da canção Ich kumm aus frembden landen her (Eu venho de uma terra estrangeira). Esse hino foi escrito para ser uma encenação natalina. Posteriormente, em 1539, Lutero compôs-lhe nova melodia que figura em quase todos os hinários modernos (essa melodia de 1539 é a que encontramos em nosso HL).

Creio que uma das maiores contribuições de Lutero dentro desse assunto esteja no incentivo ao canto congregacional, através de seus hinos (denominados de corais). (Importante destacar aqui a diferenciação entre coral e coro. Coro é o conjunto de cantores. Já o termo coral se refere aos hinos luteranos do século 16. Sempre brinco que: “Coro canta um coral, já um coral não canta nada, ele é cantado”.) Ele então encorajou o uso do coral (hino) como o principal veículo musical para o canto congregacional, além de providenciar uma posição litúrgica do coral (hino) dentro da liturgia da igreja da Reforma.

As principais características desse novo estilo musical, o coral, estão relacionadas à estrutura da música folclórica alemã da época, que era no formato “AAB”. Lutero utilizou essa estrutura em muitas de suas melodias, com uma parte (A) que se repete duas vezes seguidas, por uma parte melódica para finalização (B). De acordo com pesquisadores, essa estrutura AAB era simples e fácil de cantar, sendo que a repetição musical da estrutura auxiliou na memorização, tanto da melodia quanto do texto.

Outras características foram a utilização da extensão melódica em até uma nona e aos modos (Dórico e Jônio) que eram mais fáceis e acessíveis dentro de uma linguagem tonal. Os textos dos hinos estavam associados à melodia, refletindo também o entendimento de Lutero de que a Palavra (evangelho) deveria ser apresentada e proclamada musicalmente de maneira objetiva. Essa foi, sem dúvida, a grande “jogada de marketing” de Lutero, uma das melhores formas de evangelizar e levar Cristo para todos.

 

Você acha que a pandemia fez uma “reforma” no jeito de ser igreja?

Com certeza, esse novo normal trouxe grandes benefícios para a igreja na atualidade. É possível “visitar” cultos e programações não apenas aqui no Brasil, como no mundo afora. De certa forma poderíamos dizer que fizemos um ajuntamento musical mesmo estando em isolamento social. E o evangelho foi e está sendo propagado a todas as pessoas por esse sistema.

Claro que esse processo não foi fácil e se restringe a um determinado grupo social, que domina e que tem acesso à tecnologia. A pandemia da Covid-19 acende um alerta para que a igreja como um todo possa se preparar melhor, equipar e capacitar seus músicos, instrumentistas e cantores para situações similares. Sabemos de congregações que já enveredavam por esse caminho antes da pandemia e não foram “pegas de surpresa”.

 

O programa da Rádio Cristo Para Todos, Toda IELB Canta, traz a história das músicas e suas diversas versões, dos hinários e da própria liturgia de nossa igreja. Na sua opinião, de que forma isso contribui para nossa identidade luterana? Qual a importância da música para esta “igreja que canta”?

Nosso ponto de partida está em um conceito próprio da história da arte, onde Janson & Janson (1996) descreve o gostar daquilo que conhecemos e a desconfiança daquilo que não conhecemos como sendo uma das mais antigas características humanas. Dessa forma, o programa “Toda IELB Canta”, da Rádio CPT, tem o propósito de levar o conhecimento da história dos hinos e de nossa liturgia a todas as pessoas.

Nós temos um repertório riquíssimo e que nos identifica como cristãos luteranos. Não podemos esquecer de que os próprios reformadores do século 16 se valeram desse artifício, promovendo o uso dos hinários como parte essencial do culto cristão. Lutero deu destaque especial à música sacra quando escreveu o prefácio de um hinário publicado em 1530: “Dou minha opinião bem franca e não hesito em afirmar que é a música que consegue uma coisa que, no mais, só a teologia proporciona: um coração tranquilo e alegre”.

Você pode perguntar para qualquer pessoa sobre qual música marca ou marcou a sua vida, com certeza temos uma grande probabilidade de que a resposta seja referente a algum hino do hinário. E por que não poderíamos inovar na execução desses hinos? Por isso, no programa “Toda IELB Canta”, procuramos oferecer diferentes versões daquele hino em questão, sempre que possível. Assim o duo “história dos hinos” e “sugestões de versões” desses mesmos hinos, auxiliam no processo de pertencimento, pois mostram a importância de seus autores e compositores, além de compreendemos como a mão de Deus agiu nas suas vidas. Então os hinos passam a ter outro sentido e significado em nossas próprias vidas. Bate aquele desejo de juntar nossas vozes em congregação, nos tornamos de fato a “Igreja que canta”.

 

Referências

ELPINO-CAMPOS, Ábner. Martinho Lutero e a composição de hinos: processos e características. Revista Igreja Luterana, v.79, p.59-71, 2019.

HERL, Joseph. Worship wars in early Lutheranism: choir, congregation and three centuries of conflict. 3.ed. New York: Oxford University Press, 2004.

LUTHER, Martin. Table Talk. Luther’s Works. 54 v. St. Louis: Concordia; Philadelphia: Fortress, 1967.

JANSON, Horst Woldemar; JANSON, Anthony. Iniciação à História da Arte. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

 

Ábner Elpino-Campos

Bacharel em Música – Regência Coral – Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Coordenador do Projeto Toda IELB Canta

todaielbcanta@ielb.org.br

Natacha Teske

Jornalista, São José, SC natachateske@gmail.com

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