Uma educação para o amor


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16/03/2021 #Reflexão #Crianças #Editora Concórdia

(Continuação da edição anterior)

Uma educação para o amor

É pela boa formação dos homens em todos os tempos que se ergue a verdadeira educação. Educa melhor o educador que sustenta uma confiança básica no ser humano; que sente prazer em estar vivo e atua positivamente no cotidiano, cultivando a vitalidade; que lembra que é criação divina e propõe uma ação pedagógica de abertura para o todo (Offenheit für das Ganze) – para a totalidade do ser; que adota uma pedagogia do amor cuja expressão mais profunda é aquele wie gut: “Que bom que existas!” ou “Que maravilha que estejas no mundo!”); educa melhor o educador cuja alma em festa se abre para o saber, cuja dilatação intelectual é, ao mesmo tempo, “deleitação” (alegria) do coração; que concebe uma ideia universal de homem fundamentada numa ética de essência e na certeza de alcance da felicidade; que é coerente e vive o que pensa, estabelecendo um vínculo de educador afetivo e exemplar com quem nele se inspira; que ensina a coragem e o entusiasmo pelo novo, pelas coisas que estão além de si mesmo, pelo atrevimento de experimentar o diferente; educa melhor o educador em quem o medo de errar é suplantado pela coragem de acertar; educa melhor o educador emocionalmente sensível, que sente paixão pela vida, se preocupa com seus alunos e, interessando-se por seus problemas reais, acolhe-os; educa melhor o educador que desperta o desejo pela autonomia do pensamento, ciente de que o aluno é sujeito do seu agir e é livre para decidir seus atos e caminhos.

Muitas coisas na vida humana se alimentam do amor para sobreviver. “A flor do amor tem muitos nomes”, escreveu Guimarães Rosa. Os fundamentos filosóficos que sustentam uma ampla visão de mundo – sempre de forma provisória e em permanente estado de incompletude – são como portas pelas quais o amor se expressa. A visão educacional cristã que sustenta uma profunda unidade de visão de mundo e de homem (Weltbild und Menschenbild) é aquela que tem ciência de permanentemente “estar a caminho”, pois a condição do homem é a de viandante, num caminho no qual está sempre a caminho, em estrutura de esperança (Hoffnungsstruktur), a estrutura básica do ser humano.

A filosofia educacional cristã não sustenta ter conseguido, com sucesso, elaborar uma visão-de-mundo perfeitamente acabada, mas se empenha por manter viva a questão sobre o significado da razão última da totalidade do real – uma questão para a qual poderá certamente encontrar uma série de respostas provisórias, contudo, nunca a resposta. Qualquer esforço por apreender the complete fact (a característica da questão filosófica na feliz formulação de A. N. Whitehead), permanece necessariamente um empreendimento inacabável. A posição da filosofia educacional cristã está, nesse sentido, perfeitamente alinhada à descrição paulina de que “por enquanto vemos como em espelho”. E é esta a tarefa da filosofia: manter aberta a atenção para o inapreensível “fato total” e, assim, despertar suspeita contra qualquer pretensão à descoberta da “fórmula do mundo” como se fosse possível segurá-lo nas mãos e analisá-lo desde fora.

Sempre que estabelecemos um paralelo entre amar e educar, ensinar e aprender, não podemos esquecer de uma profunda e essencial intuição do velho e bom Platão, que afirmava que aprender pressupõe que haja um mestre, um mestre real, de carne e osso. Para aprender, o aluno não precisará de imediato apresentar um espírito crítico que examina, reexamina e depois aceita ou recusa o que lhe é apresentado. Tanto Aristóteles como Platão, dizem que quem quiser aprender deve crer; quem quiser experimentar, quem quiser se relacionar com o que é decisivo, com os fundamentos últimos, com “Deus e o mundo”, deve, com confiança, ou seja, em certo sentido acriticamente, e em atitude de disponibilidade para a silenciosa escuta, voltar-se para um homem: o mestre. Nesse sentido, parece-nos que perdemos muito com o advento do princípio de Descartes, que remete o indivíduo a sua própria subjetividade isolada, que impediu o acesso à sabedoria platônica. Curiosamente, esse princípio nunca se perdeu no Extremo Oriente, onde sem mestre pessoal não há sabedoria. 

Porém, não era apenas o crer/confiar que ligava os discípulos a seu mestre. Também era o amor. Em uma importante passagem de Fausto, a famosa obra de Goethe, lemos que “só se aprende, acima de tudo, de quem se ama”. Porém, não se trata do amor eros quando se diz que o pressuposto do aprender é – em determinado sentido – o amor, a identificação amorosa com o discípulo. O que os antigos, e também JP, entendem é que o discípulo, mediante tal identificação, é colocado na possibilidade de ver o objeto como que com os olhos do mestre. Então, ele passa a ter acesso a realidades que – do ponto de vista puramente intelectual – de modo algum poderia apreender, mas que lhe são dadas, no entanto, justamente em virtude daquela afirmação acrítica de discípulo, em virtude de sua identificação com o mestre. Portanto, o aprender acontece, em sua forma mais intensa, não por conta do interesse pelo assunto, mas por causa da ligação do discípulo com o mestre.

Também o ensinar está profundamente ligado ao amor. Afinal, o amor, a suprema de todas as virtudes, ilumina todas as outras.  No verdadeiro professor há algo que escapa ao âmbito puramente técnico, procedimental, e não pode ser propriamente aprendido.

A firme convicção de que existe um significado mais profundo para a existência é a certeza da qual a filosofia educacional cristã se alimenta. Ela torna a vida mais interessante e faz toda a diferença. Quando vejo o outro, o próximo, como alguém amado exatamente como também eu sou, abre-se, a partir dessa perspectiva, um novo horizonte para a vida; a vida entra em foco e o olhar passa a ser de límpida esperança, a Esperança fundada em Deus, a que se alicerça na convicção de que “tudo vai terminar bem, tudo terá um final feliz” (es wird gut ausgehen, es wird ein gutes Ende nehmen).

 

Enio Starosky

Téologo e educador

eniostarosky@gmail.com

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